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Vamos atirar uma bomba ao destino?
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Mas, enfim, cá estamos. Lembra do acertado no final do último informe? Então, nessa semana vamos abordar mais diretamente essa grande aspectação astrológica que ocorre em 2020. Uma semana atrás terminamos mencionando rapidamente a conjunção exata que ocorria naquele dia entre Plutão, Saturno e Sol a 22° de Capricórnio. Desde então o Sol segue no seu ritmo e já avançou 7°. Mas Plutão e Saturno continuam em conjunção exata, agora em 23°. Essa disposição impressiona tanto pelo seu sentido astrológico quanto pela sua raridade misturada à longa duração. Como se tratam de planetas com movimentos lentos (Saturno é considerado um planeta social, e Plutão um geracional), e que ademais retrogradarão ao longo do ano, essa aspectação irá se desdobrar por todo o 2020. E, em linhas muito gerais, ela aponta uma forte, intensiva, talvez até radical, desconstrução das estruturas e instituições com as quais temos socialmente agido e sofrido ações.

À esquerda: Plutão na arte de Sam Kieth, em “Epicuro, o Sábio”, de 2003. À direita: Saturno Devorando um Filho, 1823, por Francisco Goya. A diferença gritante nas representações é indicativo das mudanças estruturais em disputa.
Mas, devido à sua raridade e em favor do didatismo, é válido consultarmos a última vez em que Plutão e Saturno se encontraram em Capricórnio: a virada de 1517 para 1518. A conjunção exata dos dois planetas ocorreu cerca de um mês após Martinho Lutero ter dado a partida para Reforma Protestante afixando suas 95 Teses na porta da Igreja de Wittenberg. Período, precisamente, em que tais teses foram traduzidas para o idioma vulgar e começaram a ser amplamente distribuídas. O que por si só já ilustra muito bem como essa aspectação pode se autentificar enquanto a desconstrução mencionada acima: um questionamento e consequente cisão incontornável com as estruturas e instituições vigentes, nesse caso, as práticas que centralizavam a salvação espiritual na autoridade e institucionalidade da Igreja Católica Romana.
No entanto, o interessante é que àquela altura parece que ninguém ligado à Astrologia se deu conta do quão decisivo era aquele processo de desconstrução. Dentre outras coisas, por um motivo simples: não se conhecia o planeta Plutão. (E não vou nem cansar vocês reexplicando o por quê, independente da catalogação astrônomica, Plutão é planeta na Astrologia, tal que Sol e Lua. Mas ele só foi descoberto em 1930.) Logo, o que de mais chamativo eles registraram foi a conjunção de Mércurio, Saturno e Marte em Capricórnio no começo de 1518, que indicava justamente publicações perigosas e desafiadoras para a ordem vigente. Neste período, o próprio Papa Leão X comparou as Teses de Lutero com a escrita de um bêbado que voltando à sobriedade mudaria de opinião — com o que outra vez a infalibilidade papal ia correndo pras cucuias (e tem gente chateada que astrólogo também erra, ou atrasa…) Todavia, igualmente interessante é que mais tarde, quando ficou claro a proporção da cisma, temos notícias de dois enfoques astrológicos dentre os luteranos muito reveladores.

À esquerda: Retrato de Martinho Lutero, 1529, por Lucas Carnach. À direita: Retrato do Papa Leão X (Giovanni de Medici) com os cardeais Giulio de Medici e Luigi de Rossi, 1519, por Rafael Sanzio. A diferença gritante nas representações é outro indicativo altamente revelador das mudanças estruturais em disputa.
O primeiro era a disputa pela data e pela interpretação do mapa natal do próprio Lutero. Figuras proeminentes de então trabalharam na composição destes mapas, e o mais curioso é que acabaram reinventando (ou “redescobrindo…”) uma data para o nascimento do líder reformador Lutero (22/10/1484) que não era a data de nascimento do Lutero filho da Dona Margarete (10/11/1483) — é sério, eles colocaram em questão as informações dadas por quem pariu a criança! O negócio é que a nova data era aquela que muitas gerações de astrólogos esperavam como a que inauguraria uma nova época religiosa, graças ao grande encontro de planetas em Escorpião. Heydenreich escreveu ao próprio Lutero: “Doutor, muitos astrólogos concordam que em seu horóscopo as constelações de seu nascimento mostram que o senhor há de trazer uma grande mudança”; e Melâncton registrou: “qualquer que tenha sido a hora em que nasceu, esta admirável conjunção em Escorpião não pode não produzir um homem vigorosíssimo.” Todavia, o próprio Lutero confrontou tais hipóteses com toda sua energia. Era óbvio para ele: seu questionamento contra a autoridade papal e vaticana sobre a espiritualidade em favor da salvação mediante a fé individual e a crença na Bíblia como única escritura sacra não teria sentido caso ele consentisse ou admitisse a noção da predestinação dos astros como autoridade e a sua linguagem como fonte espiritual. Mas esse é o problema com as mudanças de estrutura: o processo sempre ocorre em meio a dois mundos diferentes.

Aqui um comparativo entre os mapas feitos pelos contemporâneos de Lutero, e um mapa feito hoje. Repare ainda a maneira completamente diferente com que os medievais e renascentistas diagramavam os mapas astrológicos: em vez da configuração redonda dividida em 360°, eles faziam configurações quadradas e triangulares.
1) Mapa de Lutero por Erasmus Reinhold, com nascimento às 21hs de 22/10/1484. Este enfatiza a Casa 5, reforçando o sentido autoral do trabalho de Lutero em revisar as profundezas das Escrituras e dos produtos que a Igreja comercializava.
2) Mapa por Lucas Gauricus, com nascimento às 13:10hs de 22/10/1484. Enfatizando a Casa 9, o astrólogo italiano procurou reafirmar o caráter religioso/filosófico de Lutero e a sua capacidade de questionar as próprias bases institucionais do poder da Igreja romana. Foi Gauricus, a partir desse mapa, quem profetizou que Lutero morreria como herege.
3) Mapa atualmente mais aceito, com nascimento às 22:46hs de 10/11/1483 (baseado em Dona Margarete e já com todos os planetas que eles não conheciam no século XVI) . Aqui as ênfases recaem nas Casas 3 e 4. Sem entrarmos em muitos detalhes, elas poderiam sugerir a importância do seu trabalho escrito e como popularizador da Bíblia em língua vulgar, além do seu profundo interesse pelas questões íntimas, particulares e familiares. (Além de reformista religioso, Lutero escreveu muito e sua tradução bíblica foi na prática o divisor de águas para a consolidação da própria língua alemã.)
O segundo enfoque astrológico foi o alarmismo causado pela previsão da reunião de todos os astros exceto um no signo de Peixes, em 1524: esperava-se nada menos que um dilúvio de proporções bíblicas que muito bem poderia ser o fim do mundo, ou fim do mundo cristão organizado (fosse católico ou protestante). Mas quando o stellium veio o que de fato aconteceu? Nada. Não sabemos até que ponto os figurões da astrologia alemã se sentiram constrangidos com o resultado, mas é como diz o provérbio africano: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça sempre glorificarão o caçador”. Não aconteceu nada para os “caçadores” a quem tais astrólogos serviam, mas para os pobres camponeses alemães o período marcou o ápice da miséria invernal. Vindo de uma sequência de colheitas ruins e crescente exploração, a aspectação ocorreu quando eles se davam conta de que aquilo que haviam plantado não renderia o esperado, e também quando entre eles pregava e discursava outro reformista: Thomas Muntzer. Independentemente dos astros, Muntzer tecia interpretações bíblicas apocalípticas, porém associando-as ao advento do Reino de Deus na Terra junto a radicais reformas sociais (e não limitadas ao questionamento da autoridade papal). Quando, enfim, a época da colheita confirmou o que os camponeses tinham previsto em fevereiro, configurou-se uma autentica (embora esquecida) guerra de classes: rapidamente uma revolta camponesa se espalhou em proporções impressionantes. Calcula-se que 300.000 camponeses mal alimentados e mal organizados se levantaram ameaçando de fato a hierarquia de poder social tanto de católicos quanto de protestantes. Lutero ficou ao lado dos aristocratas alemãs, alegando que a posições de Muntzer levavam as reformas longe demais… No princípio de 1525 os exércitos disciplinados e bem armados financiados pela aristocracia dizimaram o movimento: menos de 10 mil soldados mataram mais de 100 mil camponeses. Nenhum dos objetivos foi conquistado, e os que sobreviveram ainda foram multados.

Ilustrações baseadas nas interpretações do stellium (reunião de vários planetas) em Peixes de 1524.
1) Página de rosto do trabalho de Leonhard Reymanm (1523). No alto um peixe imenso carrega na sua barriga o Sol, a Lua, e mais 4 astros (Marte, Vênus, Júpiter e Saturno). No seu rabo parece vir a morte. E dele jorra um grande dilúvio sobre uma cidade que é então arrasada. Em baixo, dividem-se os participantes ou espectadores da tragédia: de um lado, o imperador, o papa, e a corte, do outro lado, os camponeses encabeçados por um figura saturnina como porta-bandeira (carrega uma foice e perna de pau).
2) Página de rosto do trabalho de Georg Tannstetter (1523). Aqui os astros são representados com corpos humanos e como que assistem de camarote as dificuldades dos camponeses. Como destacou Aby Warburg, este trata-se de um trabalho oficial calculado para apaziguar a corte: os planetas são mantidos sob as rédeas da mão divina.
3) É interessante como eles, apenas pela participação de Saturno no stellium regido por Júpiter, imaginaram que as maiores dificuldades recairiam sobre os camponeses, chegando até a ilustrar uma divisão de lados. Com um mapa moderno do Fevereiro de 1524 a situação fica um pouco mais clara: a grande tensão correria para a quadratura de Quíron entrando em Peixes com o Urano em fins de Touro. Não só um aspecto muito mais longo (duraria até o fim da Guerra), como com sentido mais explícito para enormes dificuldades na produção agrícola e para a revolução dos valores práticos da vida. Mas os astrólogos da época não conheciam nem Urano nem Quíron…
Observadas estas valiosas lições podemos voltar a tão comentada e de certa forma temida aspectação de 2020. Mitologicamente, por medo de ser destronado por um de seus filhos, Saturno (Cronos) engolia todos eles assim que nasciam, dentre os quais Plutão (Hades). Somente Júpiter (Zeus) escapou da determinação do pai, por meio de um embuste. Com outro truque ele fez seu pai vomitar todos os seus irmãos, e depois eles juntos derrotaram Saturno e instauraram uma nova ordem no mundo. Nesse sentido, o encontro astrológico de Saturno e Plutão é sempre marcado pela tensão explosiva entre aquele capaz de tudo para manter a estrutura e a hierarquia atual em vigor e o outro que parte para o tudo ou nada brusco e radical da tentativa de qualquer mudança. Quando isso se dá em Capricórnio, signo de terra e cardinal, os campos dessa batalha acontecem nas grandes instituições de controle e comando sociais. Exatamente como vimos que aconteceu em 1518. Porém, dessa vez essa conjunção ganha um terceiro protagonista: em resumo, Júpiter traz para cena a possibilidade redefinições de fronteiras e limites, talvez com grandes contingentes migratórios, mas sobretudo a chance (que não houve na última vez) de movimentos de massas protagonizarem as disputas pela desconstrução das estruturas sociais. Vale lembrar que é ele quem, mitologicamente, abre caminho para a derrubada de Saturno em favor de uma nova ordem “mais justa”, mas porque organiza como que um movimento de base, reunindo-se a todos aqueles que vinham sendo oprimidos pela ordem vigente.
Sem entrarmos nos méritos da luta de Lutero, podemos dizer que conforme a conjunção de 1518 ele atuou de forma a romper limites e estruturas, mas como um Plutão: saído das entranhas do poder saturnino, e apoiado fortemente pela aristocracia alemã, ou a plutocracia disponível. Agora, de novo, podemos rever uma escancarada disputa entre essas forças sociais, mas com a chance das massas serem o fiel da balança de para onde os processos (nada se concluirá neste ano) de mudanças apontarão. É tempo, portanto, de nos reunirmos, todos os oprimidos reais dessas disputas econômicas, políticas e climáticas, em movimentos de base e não perdermos as perspectivas progressistas de transformação. E sim, climáticas: pois assim como em 1524, teremos essa turma de planetas em quadratura com Urano em Touro. Mitologicamente, o avô de Júpiter e Plutão castrado por Saturno porque só se preocupava em produzir sem nenhuma responsabilização. Temos então, novamente, a sugestão de extra-ordinárias dificuldades agrícolas, pecuárias e até mesmo climáticas, com o risco dos valores práticos de regimento da vida ficarem todos excêntricos, desmedidos ou impraticáveis.

Temos, portanto, um tipo de “duelo triplo”, como em O Bom, o Mau, e o Feio (1966), filme do genial Sergio Leone — e que ninguém menos do que Tarantino já declarou como seu filme favorito (torçamos para que aquele meme do “2020, dirigido por Tarantino” não chegue a acontecer). Mas é curioso porque na astrologia clássica, com seus traços de maniqueísmo, Júpiter era entendido como o Grande Benéfico e Saturno como o Grande Maléfico; eles não conheciam o planeta Plutão, mas caso conhecessem não seria estranho que o chamassem o Grande Medonho. E pensando bem também encontramos similaridades no próprio filme. O Mau (Lee Van Cleef) é quem tem posição clara na estrutura de disputa social: é sargento do exército Confederado, adepto a torturas, e nas horas vagas um mercenário impiedoso famoso por “sempre terminar o serviço”. É também conhecido como Olhos de Anjo, e tem uma pequena deficiência física na mão (a mesma do Chandler, de Friends), o que se assemelha muito as caracterizações saturninas medievais. Já Tuco, O Rato (Eli Wallach), é um sujeito de temperamento imprevisível, resiliente, capaz de todo tipo de transformação. Assim, o Feio é um latino autor de uma centena de crimes, que vive desaparecendo das autoridades de todos os tipos. Além disso, ao longo do filme o seu objetivo é unicamente pegar para isso o tesouro dos mortos. Mas em um dado ponto ele acaba “engolido” por Olhos de Anjo. Já o Bom, embora preso pelo exército junto com o Feio, não é de fato “engolido”, mas conduz com certa artimanha o Mau para o fim do seu poder. O Bom não tem nome, quase como podendo ser qualquer um da massa. E, mais inusitado, ele ganhava a vida com um esquema engenhoso de subversão da ordem: prendia e entregava criminosos, mas depois de recebida a recompensa ele os salvava da forca. Tudo não passava de um golpe em conluio com os procurados — e seu principal parceiro era ninguém menos que… o Feio.
O informe dessa semana foi largamente inspirado por um brilhante trabalho do grande historiador da arte Aby Warburg: A Profecia da Antiguidade Pagã em Texto e Imagem nos Tempos de Lutero. Gostaria de terminar não só saudando esse historiador responsável por sustentar a íntima relação entre arte e astrologia, como destacando um ponto em que ele insiste através de alguns artigos. Não devemos jamais perder de vista a importância libertadora que teve para o espírito humano o gesto de transformar a prática astrológica de uma cosmologia aplicada e coagente para um plano de composição artística. Isso esteve longe de diminuir a Astrologia. Ao contrário! Sem o maniqueísmo e daimonização de fundo em que os astros desde as conchinchinas enviavam raios cósmicos de influências do bem ou do mal, abriu-se uma nova e muito mais rica potencialização dos sentidos e expressões dos aspectos. Consequentemente, também se potencializou em muito as possibilidades das aplicações e consultas astrológicas. Ainda mais agora, quando sabemos perfeitamente que toda repetição é, antes de tudo, uma potência da linguagem. No que a Astrologia é excelente exemplo: 1°- pela maneira como sua linguagem específica (sua diagramação de base, sua gramática calculada e medida, sua semântica aberta e não-fonética, etc) é capaz de fazer, por exemplo, corpos celestes enquanto signos expressivos entrarem em ritmos e repetições periódicas — como o caso agora de Saturno e Plutão que de fora da Astrologia seguem pouco sabendo um dos interesses do outro; 2°- pelo modo como podemos a partir dela traçar, rastrear forças, intensidades da vida que ressoem suas linhas cartográficas. Por isso mesmo, enfim, o destino não tem a forma da coação, mas a da liberdade. Ele não consiste em relações determinísticas e passo-a-passo, sucessivamente conforme a ordem do tempo representado, mas sim em conexões não-localizáveis, ações à distância, sistemas de retomada, de ressonâncias, e de signos. (DELEUZE, in: Diferença e Repetição.)
Assim, semana passada citei no nosso Instagram um poema de um verso só de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (por sinal, um reconhecido praticante de astrologia), para considerar a conjunção exata de Sol, Saturno e Plutão em Capricórnio: “Vou atirar uma bomba ao destino”. Pois se tudo o que estratifica a vida e controla seus fluxos de mudança fica em questão, podemos imaginar que até mesmo o Destino, como coação, também fique — como de fato esteve na última vez que essa conjunção aconteceu, não é mesmo? Muito bem, agora, à medida em que o Sol se distancia dessa conjunção e Júpiter se aproxima podemos ir parafraseando o verso: “Vamos atirar uma bomba ao destino”? É tempo para compormos cartografias e nos reunirmos com tudo o que podemos ser, bombardeando o que quer que nos queira impor limites que não convenham. Logo, sem essa de bons, maus e feios. Importa sobretudo a maneira como nos relacionamos com seus encontros, como potencializamos ou não os aspectos compondo nossas ressonâncias.
Que em 2020 sejamos todos figuras não alienadas de nossos próprios processos de criação.
Grande abraço, e boas composições!