OBS.: Esse texto foi originalmente publicado, em 27/06/2021, na nossa Newsletter Alto Astral. Para receber direto no seu e-mail e de forma totalmente gratuita informes, comentários e críticas astrais como essa basta se inscrever 👉 aqui 👈.
Em 1969 aconteceu o 1° Woodstock, e os Beatles tocaram pela última vez num palco. O homem pisou pela 1ª vez na Lua, e Pelé marcou seu milésimo gol no Maracanã. E em 28/06 daquele ano ocorreu a revolta de Stonewall: no começo da madrugada uma batida policial violenta no único bar gay de Nova Iorque onde a dança era permitida acabou desencadeando uma reação comunitária que se transformou num confronto até o clarear do dia. Na sequência a comunidade gay passou a protestar em frente ao bar já não mais na defensiva, mas pautando as questões afirmando orgulhosamente a homossexualidade e provocando policiais com mãos dadas e beijaços seguidos de muitos aplausos. Assim o conflito passou a protesto que passou a movimento. Na sequência surgiram as paradas gay mundo afora e as lutas organizadas por direitos civis aos homossexuais. É por isso que hoje é o Dia do Orgulho LGBTQIA+.

Parada em frente ao Stonewall Inn em 2018. Dois anos antes Barack Obama tornou o bar em Monumento Nacional dos EUA. No mapa astral da eclosão da revolta o Sol estava quadrado a Quíron e a Urano, mas conjunto à estrela fixa Mirzam o que indica que todo aquele conflito contra a marginalização e pela afirmação de sua identidade podia levar a um novo movimento brilhante e orgulhoso. (OBS: Mirzam é a pata dianteira da constelação do Cão Maior, considerada como um arauto já que aparece no céu pouco antes de Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno).
Muito bem, mas e a Astrologia? Vamos tentar aqui uma reflexão sobre alguns pontos da teoria astrológica. Para começar os 12 signos: eles são divididos igualmente entre elementos, ritmos e… gêneros. No entanto, vamos olhar com mais atenção essa equivalência entre masculino e feminino rara na Antiguidade (e mesmo hoje!). Primeiro: na projeção dessa divisão nas casas terrestres fica clara uma diferença de hierarquia: por exemplo, o Ascendente está ligado a um signo masculino, enquanto casas consideradas difíceis como 6, 8, e 12 ficam ligados ao feminino. Mas também porque essa divisão arbitrária e normativa acaba gerando fatos astrais curiosos como o Touro ser feminino, ou uma balança assexuada ser masculina.
Além disso, essas divisões tem contrapartes geométricas na mandala que desembocam nos “aspectos astrológicos” marcando-os também de sexismo. Veja só: trígonos e sextis (aspectos de 120° e 60° respectivamente) são em geral considerados “favoráveis”, o primeiro ainda mais do que o segundo. Isso porque num sextil os planetas estão se relacionando a partir do mesmo gênero, e em trígonos não só o mesmo gênero como também o mesmo elemento. Já quadraturas e oposições (90° e 180°, respectivamente) são considerados “difíceis”. As primeiras ocorrem entre gêneros diferentes. As segundas entre o mesmo gênero, mas aí a dificuldade aparece como um excesso do mesmo: por exemplo, Áries e Libra são signos opostos, ambos masculinos de mesmo ritmo, e de elementos também ligados a signos masculinos (fogo e ar, respectivamente).
Olhando para os planetas as coisas ficam mais complexas e interessantes. Dentre os sete tradicionais (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte Júpiter e Saturno) não há paridade de gênero, somente Lua e Vênus são femininas. No entanto, não são masculinos todos os outros planetas. Mercúrio, deus dos deslocamentos e um metal líquido, é ambivalente: ora masculino, ora feminino, a depender das relações astrais. E isso não é algo banal ou irrelevante na teoria astrológica. Na verdade, o gênero de Mercúrio abre espaço para o não-binarismo no conjunto das relações astrais. Sim, em determinadas circunstâncias os planetas podem alterar seus gêneros!

Freddie Mercury com seu marido Jim Hutton; e Daniela Mercury com sua esposa Malu Verçosa. Ambos os Mercury também tiveram casamentos héteros antes.
Tecnicamente, isso teria que ver com as misturas entre quente, frio, seco e úmido que caracterizam os signos em seus elementos. Mas, em resumo, significa que um planeta masculino pode se feminizar, e um feminino se masculinizar, ou ainda a masculinidade ou a feminilidade de um dado planeta pode ser reforçada ou atenuada. Por exemplo, na astrologia antiga Marte rege tanto Áries (signo masculino, de fogo) quanto Escorpião (feminino, de água). Reforçado em Áries ele aparece como o guerreiro direto, assertivo. Mas ainda que domiciliado, em Escorpião ele se umidifica, atenua sua masculinidade, e passa a guerrear com mais sutileza e psicologia. Em vez dos confrontos cara a cara ou “testa com testa”, conforme o carneiro, entram os ataques por veneno, como os dos escorpiões.
Mas o que isso tem que ver com sexualidade? Vejamos, Ptolomeu mesmo dividiu o mundo em quadrantes, e “justificou” que na Europa a homossexualidade era mais bem aceita e comum porque o seu quadrante estava Marte e Júpiter (duas figuras eminentemente masculinas), ao passo que no sul do Oriente se dava o contrário devido a regência entre Vênus e Saturno (feminino e masculino, prazeres e rigidez). Ou seja, para o autor não era uma fragilidade de Marte que se relacionava mais com a homossexualidade, e sim o seu excesso. Ele próprio, Ptolomeu, escrevia desde Alexandria, talvez a principal cidade do centrão desse mapa e onde se supõe, portanto, que tinha de tudo misturado naquele tempo.

Ilustração de Alexander Boxer do mundo ptolomaico e sua divisão dos povos.
Curiosamente, nos últimos anos a linha tracejada do mapa acima de fato parece refletir uma melhor aceitação da homossexualidade, partindo da Islândia até o Omã ou Índia. E, todavia, antes de celebrarmos uma confirmação ptolomaica vamos lembrar que apenas uns cem anos atrás esse eixo bem poderia ser descrito ao contrário. A história, assim como o céu, está sempre em movimento e mesmo o gênio de Ptolomeu não escapou de uma prescrição normativa amparada na cultura da época. Ainda assim, concordo com Roger Beck de que essas possibilidades de mudança de gêneros não era uma mera necessidade estratégica dos astrólogos antigos para contornarem desfechos estranhos às previsões; faz muito mais sentido que esse mecanismo teórico estivesse calcado numa percepção bem mais acurada especialmente para aquela época de que o gênero é algo bem mais complexo e não se limita nem ao biológico ou ao psicológico.
Pessoalmente, não saberia de forma alguma estabelecer a sexualidade de um cliente através de um mapa astral, pelo menos em termos binários. Nem conheço nenhum astrólogo que faça isso. Porque, justamente, num mapa saímos dessas “divisões grandes” e binárias (isso ou aquilo) para mergulharmos em ressonâncias desde o micro. Isto é, não vou saber dizer se um dado mapa é de homem ou mulher, nem de hétero ou homossexual, etc, mas podemos observar no mapa se a pessoa tende a ter tesão mais por uma boa conversa ou por um corpo atlético, se prefere relacionamentos longos e comprometidos ou experiências variadas, se valoriza a intimidade ou a publicidade de um parceiro, se ciumenta ou fora do convencional, se é precoce ou se introvertido, etc etc etc. Tudo aquilo que na verdade bagunça a divisão grande, afinal dois homens héteros podem ter todas as coisas acima completamente diferente, enquanto um hétero e um gay podem ter tudo igual.
Por isso mesmo, viva a diversidade, porque é ela que nos enlaça a todos, e porque gente, toda gente, foi feita pra brilhar!
Quero terminar ressaltando que esse texto foi apenas um aperitivo. Em parte porque recomendo outras leituras sobre a dimensão da repressão e violência envolvida na revolta de Stonewall e que eu aqui não tinha como detalhar. Mas também porque poderíamos conversar muuuuito mais sobre as questões astrológicas que apresentei aqui. Então, só espero que tenha sido um bom aperitivo.
Grande abraço,
Toni (Antônio Leandro Barros).