OBS.: Esse texto foi originalmente publicado, em  19/11/2019, na nossa Newsletter Alto Astral. Para receber direto no seu e-mail e de forma totalmente gratuita informes, comentários e críticas astrais como essa basta se inscrever 👉 aqui 👈.


Mercúrio está retrógrado, e só por isso essa newsletter atrasou…

É verdade esse bilhete. Não foi porque viajei ou procrastinei, nem porque é difícil pra caramba acompanhar o que está acontecendo, pensar conteúdos relevantes, de qualidade e ainda conseguir fazer tudo encaixar em um texto bem resolvido. Não, o que pega é que entre 31/10 e 20/11/19 o planeta Mercúrio está retrógrado em Escorpião. E aí entramos naquele festival quase hipocondríaco dos almanaques de astrologia: período propício para falhas de comunicação, entrega atrasada, contratos adiados, internet que não para de cair, esquecimentos e tudo mais quanto for ato falho. Ok, mas é aí que vem a peripécia, é aí que mora e vive o salto quântico da questão. Proponho um paradoxo: que tal usar a própria retrogradação de Mercúrio para esclarecer muito bem esclarecidinho esses acontecimentos astrológicos? 

À esquerda: Plutão na arte de Sam Kieth, em “Epicuro, o Sábio”, de 2003. À direita: Saturno Devorando um Filho, 1823, por Francisco Goya. A diferença gritante nas representações é indicativo das mudanças estruturais em disputa. 

Mas, devido à sua raridade e em favor do didatismo, é válido consultarmos a última vez em que Plutão e Saturno se encontraram em Capricórnio: a virada de 1517 para 1518. A conjunção exata dos dois planetas ocorreu cerca de um mês após Martinho Lutero ter dado a partida para Reforma Protestante afixando suas 95 Teses na porta da Igreja de Wittenberg. Período, precisamente, em que tais teses foram traduzidas para o idioma vulgar e começaram a ser amplamente distribuídas. O que por si só já ilustra muito bem como essa aspectação pode se autentificar enquanto a desconstrução mencionada acima: um questionamento e consequente cisão incontornável com as estruturas e instituições vigentes, nesse caso, as práticas que centralizavam a salvação espiritual na autoridade e institucionalidade da Igreja Católica Romana. 

No entanto, o interessante é que àquela altura parece que ninguém ligado à Astrologia se deu conta do quão decisivo era aquele processo de desconstrução. Dentre outras coisas, por um motivo simples: não se conhecia o planeta Plutão. (E não vou nem cansar vocês reexplicando o por quê, independente da catalogação astrônomica, Plutão é planeta na Astrologia, tal que Sol e Lua. Mas ele só foi descoberto em 1930.) Logo, o que de mais chamativo eles registraram foi a conjunção de Mércurio, Saturno e Marte em Capricórnio no começo de 1518, que indicava justamente publicações perigosas e desafiadoras para a ordem vigente. Neste período, o próprio Papa Leão X comparou as Teses de Lutero com a escrita de um bêbado que voltando à sobriedade mudaria de opinião — com o que outra vez a infalibilidade papal ia correndo pras cucuias (e tem gente chateada que astrólogo também erra, ou atrasa…) Todavia, igualmente interessante é que mais tarde, quando ficou claro a proporção da cisma, temos notícias de dois enfoques astrológicos dentre os luteranos muito reveladores.

À esquerda: Retrato de Martinho Lutero, 1529, por Lucas Carnach. À direita: Retrato do Papa Leão  X (Giovanni de Medici) com os cardeais Giulio de Medici e Luigi de Rossi, 1519, por Rafael Sanzio. A diferença gritante nas representações é outro indicativo altamente revelador das mudanças estruturais em disputa. 

O primeiro era a disputa pela data e pela interpretação do mapa natal do próprio Lutero. Figuras proeminentes de então trabalharam na composição destes mapas, e o mais curioso é que acabaram reinventando (ou “redescobrindo…”) uma data para o nascimento do líder reformador Lutero (22/10/1484) que não era a data de nascimento do Lutero filho da Dona Margarete (10/11/1483) — é sério, eles colocaram em questão as informações dadas por quem pariu a criança! O negócio é que a nova data era aquela que muitas gerações de astrólogos esperavam como a que inauguraria uma nova época religiosa, graças ao grande encontro de planetas em Escorpião. Heydenreich escreveu ao próprio Lutero: “Doutor, muitos astrólogos concordam que em seu horóscopo as constelações de seu nascimento mostram que o senhor há de trazer uma grande mudança”; e Melâncton registrou: “qualquer que tenha sido a hora em que nasceu, esta admirável conjunção em Escorpião não pode não produzir um homem vigorosíssimo.” Todavia, o próprio Lutero confrontou tais hipóteses com toda sua energia. Era óbvio para ele: seu questionamento contra a autoridade papal e vaticana sobre a espiritualidade em favor da salvação mediante a fé individual e a crença na Bíblia como única escritura sacra não teria sentido caso ele consentisse ou admitisse a noção da predestinação dos astros como autoridade e a sua linguagem como fonte espiritual. Mas esse é o problema com as mudanças de estrutura: o processo sempre ocorre em meio a dois mundos diferentes. 

Eddie Redmayne e Mark Rylance como, respectivamente, Viola/Cesário e Olívia em cena de “Noite de Reis”, 2002, no Middle Temple Hall. Afim de redobrar o jogo de representações sexuais da peça, esta montagem retomou a prática dos tempos de Shakespeare em que todos os papeis, inclusive os femininos, eram desempenhados por atores homens. 

Ou seja, cada um desses personagens ao experimentar o que ainda poderiam ser para além do que já eram (Viola como homem, Orsino e Olívia na atração por uma figura que contradizia seus planos) acabaram reorganizando a própria vida – e não só do ponto de vista individual. O título original da peça, Twelfth Night, lembra que o Dia de Reis/Astrólogo cai justamente 12 dias depois do Natal (o mesmo número de signos zodiacais). Mas o seu subtítulo é que é importante de destacar: Noite de Reis – ou o que vocês quiserem. Isto porque em muitos lugares o Dia de Reis havia se tornando um tipo de feriado carnavalesco em que mais do que trocar presentes as pessoas trocavam de papeis, se fantasiavam, pregavam peças e experimentavam outras formas de atuar, de se comportar. 

Eddie Redmayne e Rhys Meredith como, respectivamente, Viola/Cesário e Sebastian (irmão gêmeo de Viola).

O importante, portanto, é se experimentar de maneiras diferentes. “Como quiserem”: aprendendo um instrumento menos usual, começando uma prática esportiva diferente, explorando outras sensualidades, ou se aventurando em cartografias astrais.

Astrologicamente, o ano de 2020 será bastante tumultuado e intenso. Digamos que estruturalmente desafiador. Mas por isso também pode ser um bom ano para alterarmos o sentido de alguns dos nossos processos. Então, no próximo email falaremos mais detalhadamente dos aspectos astrais para 2020 – para evitar que este ficasse muito gigante separei o comentário propriamente dos astros para a próxima publicação, ok? Mas hoje, especialmente, já acontece uma aspectação muito impressionante: a conjunção do Sol com Saturno e Plutão em Capricórnio e ainda acompanhados de pertinho por Mercúrio, Júpiter, e Nodo Sul. Ponto chave para atentarmos, mirarmos os movimentos e necessidades de transformações das estruturas todas. É tempo de desconstrução, no seu melhor sentido: mais do que mera destruição, é o jogar com as próprias estruturas e ver o que realmente se mantém de pé, o que de fato tem fundamento, funcionamento e necessidade. E o que não tem, e por isso será transformado. As hierarquias, as amarras e as sedimentações serão desafiadas. É tempo de desterritorialização dos processos de produção, em que precisaremos voltar os olhos do macro para as pequenas organizações, teremos que formar bases e ir em busca de novas territorialidades.

Em destaque: Nodo Sul (07°), Júpiter (09°), Plutão (22°), Saturno (22°), Sol (22°) e Mercúrio (24°), todos em Capricórnio. E vale lembrar que a última vez que tivemos essa conjunção entre Plutão e Saturno em Capricórnio foi a  500 anos (virada de 1517 para 1518, exatamente o período em que Lutero publicou suas 95 Teses e fez rebentar o abalo sísmico da Reforma Protestante). 


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