OBS.: Esse texto foi originalmente publicado, em 13/01/2020, na nossa Newsletter Alto Astral. Para receber direto no seu e-mail e de forma totalmente gratuita informes, comentários e críticas astrais como essa basta se inscrever 👉 aqui 👈.
O Dia de Reis e o 2020.
Enfim, atendendo a pedidos exaltados a sua newsletter favorita voltou depois de umas férias (não previstas) da internet. Eu sei, eu sei que você ficou chateado porque não teve a news de Sagitário ou de Capricórnio, mas calma. Chegaremos lá, por outros caminhos. Ou até já chegamos, porque você sabe pelos manuais que Sagitário é malandro nômade, daí atrasa ou fura os compromissos, e Capricórnio é sujeito cheio dos afazeres e não fica dando explicações que não queira. Então, tudo bem colocadinho e esclarecido, vamos para a primeira news do 2020, onde faremos um tipo de introdução dos desafios para esse ano. Vem com a gente porque tá quente!

Iluminura dos Salmos da Abadia de Santo Albano, Inglaterra, séc. XII.
Na semana passada comemorou-se o Dia do Astrólogo, não por acaso no também Dia de Reis: o dia que a tradição cristã atribui à chegada dos três reis magos diante do menino Jesus recém-nascido. A vinculação é evidente considerando-se que, segundo Mateus (2:1-12), os tais magos sabiam da chegada do messias e também peregrinaram do Oriente até Jerusalém e Belém se guiando apenas pelos astros. Porém, poderíamos considerar outras relações menos óbvias. Ainda segundo Mateus, não há referência a reis, apenas a magos: logo não eram figuras de poder, mas sim de práticas e percepções extra-ordinárias porque estrangeiras, estranhas, excêntricas. Todavia, eles não vão até o recém-nascido para oferecer seus conhecimentos, mas apenas para “render homenagem”. Entregam presentes simbólicos ao bebê, no fundo apresentando as possibilidades de ser que ele tem para si: a mirra, um óleo medicinal, toma em consideração sua mortalidade humana e seu papel como curador, médico; no ouro consideram sua majestade (“Rei dos Judeus”) e seu papel de líder; e o incenso considera sua divindade e seu papel de elevação espiritual.
Considero que, em abstrato, essas são características que bem poderiam descrever o trabalho do astrólogo: se guiar pelos astros, mas em vez de oferecer pseudo-lições e conjecturar ensinamentos, apenas render homenagem a quem encontra (através dos astros) presenteando com as possibilidades que a pessoa tem para si. Juntando-a com o que ela pode. Mas, como? Dizem os gato-mestres do pensamento simbólico, antropológico, etc. que a Astrologia se fundamenta em uma dupla projeção: 1) projeção das características e comportamentos humanos nos astros; 2) projeção das relações entre estes astros humanizados na vida terrena dos homens. Isso parece muito acertado e bem colocado, mas não resolve tudo. Em especial, deixa passar batido que para muito além da projeção há agenciamento. Isto é, a incorporação de outra possibilidade de experimentação da vida: nesse caso, da maquinação entre um ser-humano e determinados traços no céu. E não há nisso nada de necessariamente místico ou esotérico: uma pessoa que se agencia com um novo emprego formal vai passar a experimentar o tempo de forma diferente, talvez mude a sua maneira de se vestir, de falar, até de andar ou comer; e assim também quem se agencia com uma modalidade esportiva, uma prática artística, um novo relacionamento amoroso, etc. Às vezes a leitura de um livro, a adoção de animal ou mesmo um mero corte de cabelo pode ser agenciamento suficiente para experimentar a vida de outra maneira: para se experimentar sendo outro.

“Adoração dos Magos”, Capela Scrovegni, Pádua (Itália), 1303. Giotto de Bondone parece ter sido o primeiro artista dar à Estrela de Belém uma forma baseada em um fenômeno astrológico. Alguns chegaram a sugerir que ele havia se inspirado na passagem do Cometa Halley pelos céus italianos em 1301.
Metaforicamente, podemos considerar que isso se dá mais ou menos como nos jogos de representação de Noite de Reis, a comédia de Shakespeare. Em resumo, em uma terra fictícia um Duque de Orsino está convencido de estar apaixonado pela Condessa Olívia, mas esta vive em luto pelas mortes do pai e irmão. Nesse quadro em que ela está fechada ao amor e se nega a qualquer entretenimento ou companhia masculina e que ele não tem como avançar em seu desejo, surge a figura de Cesário: na verdade uma mulher, Viola, que se faz passar por homem depois de chegar a esta terra devido a um naufrágio. Cesário/Viola logo passa a trabalhar para Orsino como agenciador de trocar de cartas com a Olívia. Mas agora, por conta da experimentação de Viola todo o quadro vai se transformando: travestida de Cesário, Viola acaba se apaixonando por Orsino, mas, na companhia de um homem que na verdade é uma mulher, Olívia abandona o luto e se apaixona por Cesário! E mesmo Orsino começa a desconfiar do seu amor entre Olívia e Cesário/Viola. Ao fim, a comédia se resolve com o reaparecimento do irmão gêmeo idêntico de Viola, Sebastian: Olívia então devota seu amor a ele; e Orsino descobrindo Viola se entrega de amores à ela.

Eddie Redmayne e Mark Rylance como, respectivamente, Viola/Cesário e Olívia em cena de “Noite de Reis”, 2002, no Middle Temple Hall. Afim de redobrar o jogo de representações sexuais da peça, esta montagem retomou a prática dos tempos de Shakespeare em que todos os papeis, inclusive os femininos, eram desempenhados por atores homens.
Ou seja, cada um desses personagens ao experimentar o que ainda poderiam ser para além do que já eram (Viola como homem, Orsino e Olívia na atração por uma figura que contradizia seus planos) acabaram reorganizando a própria vida – e não só do ponto de vista individual. O título original da peça, Twelfth Night, lembra que o Dia de Reis/Astrólogo cai justamente 12 dias depois do Natal (o mesmo número de signos zodiacais). Mas o seu subtítulo é que é importante de destacar: Noite de Reis – ou o que vocês quiserem. Isto porque em muitos lugares o Dia de Reis havia se tornando um tipo de feriado carnavalesco em que mais do que trocar presentes as pessoas trocavam de papeis, se fantasiavam, pregavam peças e experimentavam outras formas de atuar, de se comportar.

Eddie Redmayne e Rhys Meredith como, respectivamente, Viola/Cesário e Sebastian (irmão gêmeo de Viola).
O importante, portanto, é se experimentar de maneiras diferentes. “Como quiserem”: aprendendo um instrumento menos usual, começando uma prática esportiva diferente, explorando outras sensualidades, ou se aventurando em cartografias astrais.
Astrologicamente, o ano de 2020 será bastante tumultuado e intenso. Digamos que estruturalmente desafiador. Mas por isso também pode ser um bom ano para alterarmos o sentido de alguns dos nossos processos. Então, no próximo email falaremos mais detalhadamente dos aspectos astrais para 2020 – para evitar que este ficasse muito gigante separei o comentário propriamente dos astros para a próxima publicação, ok? Mas hoje, especialmente, já acontece uma aspectação muito impressionante: a conjunção do Sol com Saturno e Plutão em Capricórnio e ainda acompanhados de pertinho por Mercúrio, Júpiter, e Nodo Sul. Ponto chave para atentarmos, mirarmos os movimentos e necessidades de transformações das estruturas todas. É tempo de desconstrução, no seu melhor sentido: mais do que mera destruição, é o jogar com as próprias estruturas e ver o que realmente se mantém de pé, o que de fato tem fundamento, funcionamento e necessidade. E o que não tem, e por isso será transformado. As hierarquias, as amarras e as sedimentações serão desafiadas. É tempo de desterritorialização dos processos de produção, em que precisaremos voltar os olhos do macro para as pequenas organizações, teremos que formar bases e ir em busca de novas territorialidades.

Em destaque: Nodo Sul (07°), Júpiter (09°), Plutão (22°), Saturno (22°), Sol (22°) e Mercúrio (24°), todos em Capricórnio. E vale lembrar que a última vez que tivemos essa conjunção entre Plutão e Saturno em Capricórnio foi a 500 anos (virada de 1517 para 1518, exatamente o período em que Lutero publicou suas 95 Teses e fez rebentar o abalo sísmico da Reforma Protestante).